“Como o senhor Walser está contente! No meio de arbustos, ervas selvagens e outras manifestações da natureza ainda em pleno e imprevisível trajecto de vida, eis que foi possível construir – por via de um sentido técnico especializado de que só a grande civilização é capaz – a casa simples, sem nada de luxuoso ou ostensivo, uma mera casa para viver, a de Walser, homem que se encontra, por enquanto, sozinho no mundo, mas que vê naquela construção finalmente terminada – quantos anos demorou?! Tantos! – uma oportunidade para no fundo, sejamos sinceros encontrar companhia.
Se até ali a ausência de um espaço confortável, fechado, unicamente seu, fora um obstáculo intransponível para a execução prática de alguns convites que estavam bem ali, há vários anos, na sua cabeça, como que já escritos ou verbalizados, agora, ainda com o ostensivo cheiro a novo que vinha das madeiras, da pintura das paredes, do próprio ruído das máquinas necessárias à sua vida doméstica de homem sem companhia, mas que ainda assim está claro de ver, se alimenta e suja as coisas, agora, então, com a nova casa, tudo lhe parecia possível. A casa não era para Walser apenas um lugar que a humanidade conquistara ali á floresta, ao espaço que as coisas não humanas pareciam ter determinado como seu – era ainda uma paisagem ideal, para começar a falar com os outros homens – e como disso ele sentia necessidade. Poderiam – já havia sofás! – sentar-se e falar sobre os assuntos do mundo.”
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Walser, 2006
Adormeceu, tranquilo, pensando no dia seguinte. Tinha grandes expectativas
PROJECTO É DESEJO
DO DESEJO À CONSTRUÇÃO
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