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10 de abril de 2015

A ilha do acaso

Situada ao largo da costa dos Estados Unidos, perto da Ilha da Fortuna. Nela, os terramotos são frequentes. Aqui, tudo parece ser deixado ao acaso, e todo o tipo de monstros e produzido por uma natureza que ainda parece estar num estado infantil de experimentação. Na Ilha do Acaso as pessoas nascem com patas de cavalo em vez de mãos; são consideradas tão estúpidas como cavalos e deixadas nos campos a pastar. Por outro lado, os cavalos nascem com mãos humanas e criaram oficinas e lojas. Também conseguem tocar instrumentes musicais, tendo-lhes a sorte dado os membros que noutros países proporcionaram ao homem um estatuto superior. Há uma floresta na zona meridional da ilha habitada por novas espécies de animais cujos corpos são combinações fortuitas de órgãos - dois ou oito dedos, uma boca verti¬cal, olhos na nuca, tudo de uma forma aleatória. As espécies animais multiplicam-se de forma imprevisível. Em certos anos há excesso de crocodilos, noutros escassez de animais domésticos. Crê-se, contudo, que o acaso conduzira a um mundo perfeito no qual todos os animais falarão; preparando-se para isto, os animais já estão a ser ensinados a ler e a escrever por professores que usam a linguagem gestual. Os visitantes vão gostar de participar num jogo em que diversos dados de oito faces, com letras de cada um dos lados, são colocados numa caixa, agitados e lançados. O vencedor e o jogador que, por acaso, componha o maior número de palavras e frases. Em 1789, um terramoto fez com que a caixa dos dados caísse: as letras dos dados formaram o discurso de Luís XVI aos Esta¬dos Gerais. Abbe Balthazard, L´Isle des Philosophes et Plusieurs Autres, Nouvellement Découvertes, & remarquables par leur rapports avec la France actuelle, Chartres, 1790

13 de março de 2015

Ailum

Uma gravura do século XVII — não se sabe se cópia do natural ou trabalho de imaginação é o único ponto de referência material de que dispõe o historiador acerca da cidade de Ailum.
A gravura mostra Ailum como uma construção arquitectónica irregular, assentada sobre uma ilha montanhosa, que ficaria a meia distancia da África e da América do Sul. A parte baixa da ilha e tomada por uma amurada de pedra, que constituía certamente o cais do porto, a oeste da ilha. Partindo dessa direcção, temos a escadaria que leva a uma espécie de fortaleza, de muros negros e altos, dominados por uma torre com ameias e seteiras. A esquerda da fortaleza, derrama-se o casario miúdo, erguido na encosta escarpada, entre manchas de vegetação. Mais atrás, a direita, sobre os telhados que se sucedem em níveis diversos, alteiam-se os dois campanários da catedral, outrora um convento.
Era no quintal desse igreja que havia um poço, de aguas profundas e claras. Tao claras que dava para ver, lá em baixo, a cabeça colorida de uma serpente, tomando toda a circunferência do poço. "A serpente dorme", escreveu Huns Dott*, "e seu corpo se estende sinuosamente imóvel por debaixo da terra, em toda a extensão da ilha. O povo acredita que, se um dia a serpente acordar e se mover, Ailum, esfacelada, desaparecerá no oceano."


El Lissitsky, 1922